segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Ponte Aérea


Se as coisas conseguissem ser um pouco diferente, talvez Paulo pudesse estar aqui, pensa. O café fedendo três dias. A caneca com a borra escura deixando algumas moscas sem céu. A mala arrumada sobre o gaveteiro. Um sapato no pé, o outro andando no meio da sala. Cigarro mais um, deixando outro aceso no cinzeiro de madeira. A cabeça estava na Guatemala quem sabe.
Vitória, que nome. Derrota ficaria mais apropriado, mamãe errou feio. Uma tosse aplica a censura ao cigarro continuado. O jeans amarrotado, tendência, tendência para quem não gosta de passar roupas. Passa a mão nas dobras. Pequenas, leves, grossas e suaves.
Um caralho mesmo ter que sair daqui. Olha para a janela sem ver. Apenas o costume de vazão, de saída. Cabelos loiros caindo sobre a camisa branca. Nunca vou ser uma mulher moderna. Nunca vou aceitar as merdas que me acontecem como se não fosse nada. Elas que se fodam. Eu não sou assim.
Pisa firme no tapete persa, pega o sapato fugitivo.
Arrastando a mala deixa o apartamento dando um tapa na parede para apagar a luz. Passa a chave cuidadosamente, como que de repente, estivesse fazendo algo muito importante. Elevador, mas agora já não dói tanto.
Esta cadela ta pesada, deixando a mala no carro. Vai até o latão de lixo. Tira a chave do carro do molho e joga tudo lá, o celular vai junto. Entra no carro. Não quero escutar merda nenhuma. Retoca a sombra dos olhos. Lindos, vivos. Sangram entre uma piscada e outra.
A mulher que a olha no espelho é outra. Tem mágoa, tem dor. No fundo da escuridão dos olhos castanhos, ela vê uma pontinha. Pode ser ela, aprisionada. A Vitória feliz. O lábio sugere um sorriso que não vem.
Pelas vias, corre, cansa. Isso aqui é um atraso! Chega. Mais duas batidas no volante. O olhar determinado semi-vendo o retrovisor. Não quer olhar para trás. Passou a vida com os olhos nas costas. Esta vaca quer me foder. Buzina.
Adeus, adeus, adeus. O mantra corre pelas avenidas. O carro corta o vento. Curvas perigosas, vidas perigosas. Espero que o viado do Marco não tenha confundido o horário desta merda. Sapato vermelho. Porquê ainda não joguei fora este? Vontade de ficar descalça. Dois no carro ao lado olhado. Por trás da máscara ferida há uma mulher. Cadê?
O moço do estacionamento vem correndo. Não pode deixar o carro aqui. Tome a chave, e leve isso pra onde quiser. Sai arrastando a mala. O moço vem correndo atrás. Não adianta. É seu, vai antes que eu desista. Facilita filho, os documentos estão lá dentro. A unha esmaltada em dourado verde aponta o carro.
Fila, fila, fila. Atrasada é mais fácil. Abre porteiras. A senhora está atrasada. A moça está bem informada. Corre pelo hall. Saltinhos fazendo barulho pelo mausoléu. Entrada pelo portão 9. Desce até a aeronave. 
Nos primeiros minutos algumas lágrimas sibilam no assento. Para se ocupar passa os olhos em uma revista qualquer. Não vê nada. Não ouve nada. A atmosfera da aeronave é tomada por cumplicidade. Deixou, passos antes de entrar, tudo o que a impedia de ficar. O acento ao lado vazio. Vazio, quanto vazio. Aperta o apoio de braço com os dedos. Força.
Fuça na bolsa atrás do espelho. Um delicado adereço com bordas pretas. Olha a si. Com um lenço branco vagarosamente tira todo o exagero da make. Os olhos perdem a sombra pesada, ganham paz. Contorna delicadamente as maçãs do rosto. De pedaço em pedaço tira a máscara, mostra a mulher que há muito esquecida, agora viva.
Em um lampejo de esperança e felicidade, olha para o corredor. De longe consegue perceber alguém aproximando. O moço, o homem. Como quem procura alguém. Segura a respiração. É ele! Tem que ser ele. Me salva, quase grita.
Segundos tornam-se minutos, e na mesma morosidade, uma cabeça aparece à sua frente. Seu homem, o homem de sua vida. Ali, quieto, olhos serenos. Um sorriso maroto nos lábios. iPod nos ouvidos. Bermuda. Sorri.
Senta-se ao seu lado, olha diretamente nos olhos. Eu te amo mamãe, com um beijo estalado na bochecha.
Vitória, agora também mulher, decola.

 Cesarion

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