Um dia. Não muito longe daqui. Em seus devaneios de garota, a menina brincava. O porão escuro cheirando a pó tornava-se castelo. O baú velho um piano de caldas. E entre uma cena e outra, a novela da criança acontecia. Sozinha, no porão, a menina escrevia histórias mil.
Interpretando Carmens e Condessas, entre um e outro passo ladrilhos tornavam-se lantejoulas. A infanta criatividade bailava de cidade em cidade, atrás do príncipe que se perdeu.
Ah, minha amiga, essa menina levada... Fez do castelo seu mundo, fez do seu mundo um porão. E mil anos viveu no céu, entre histórias e novelas disputando seu maior papel. Era princesa, era rainha, era borralheira. Um dia mãe, o outro filha, um dia só, o outro em família. Assim a menina cresceu.
E como qualquer criatividade infantil, a menina com o passar do tempo, assumiu outro papel.
Tornou-se mulher, livre, leve. E entre príncipes e Reis, seu fado aconteceu. E foi filha, e foi mãe, e foi família, e foi só. A pequena menina atriz fez um castelo do pó.
Ah amiga minha, esta criança, doce esperança que lá atrás ficou, ainda aqui. Pouco a pouco, desenha no seu mundo o que viveu, vive no seu mundo o que desenhou. E entre uma cena e outra, os capítulos passam a passos largos. E tanto a menina queria magicar o mundo real, e tanto queria ter a luz de um mundo ideal. A criança desenhou um mundo brilhante onde poderia viver.
Ah, minha amiga, mas isto não aconteceu. O mundo não era brilhante, não era heróico e não tinha alegria o bastante. Mas, uma coisa te garanto, o brilho aqui ficou. O brilho dos olhos de uma criança, a mágica feliz e de esperança de um ser que um dia sonhou. E no opaco mundo real, o brilho da criança é essencial para dar esperança. No mundo que ela quis ser palco, veio holofote. E sua luz guia toda a peça, e encanta a cada fresta a plateia que no mesmo trote, vive o que o mundo omitiu.
Esta história te conto, pois por mais que seja um conto ela é um mundo real. E hoje a menina, mulher atriz. Me faz mais que feliz, pois no meu mundo apareceu. E aqui fica e aqui leva, e ilumina minha vida, e me releva tudo o que devo sentir.
Ah, minha amiga, já fosses tantas, já fosses várias mulheres. Já comestes de várias colheres, e até fel experimentou. E hoje, deixaste de ser criança, mas não deixe a esperança de criança e de mulher. Seja feliz do tamanho que sempre quis. Seja feliz como um dia desenhou que seria. E exija deste mundo snobe que lhe dê mais motivos para sorrir.
Te amo. Fosse eu desenhista, desenhava um mundo melhor para você.
Danilo
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